Está a acontecer o que temia. Depois da novela "A senhoria", sobre a qual me debrucei no post anterior, sucedeu-se "Polzunkov" e depois a que deu nome a esta compilação: "Coração fraco". Desde que comprei este livro que andava com maus pressentimentos em relação a esta novela. Pelo título, dada a natureza do meu coração, pressenti que não sairia ileso da sua leitura. E mais apreensivo fiquei depois de ler "A senhoria". Ainda não acabei de ler "Coração fraco" e já sei como vai terminar...
Quando iniciei a sua leitura vi logo no que é que ia dar. E, a cada página que virava, com mais certeza ficava, confirmando todos os receios que antevera. A história começa por mostrar a forte relação de amizade entre dois jovens, um mais impulsivo, de coração mais fraco digamos assim, e outro mais sensato. Vássia e Arkádi. O primeiro estava eufórico e ansioso por, finalmente, poder contar ao amigo que se ia casar. Facto de que o outro nem suspeitava porque Vássia nunca lhe falara da sua adorada namorada, de há apenas quatro meses, não fossem as coisas correr mal.
Com estes ingredientes em cima da mesa, já estava a ver qual iria ser o prato principal. Ainda assim fui continuando a sua leitura, na esperança de que estivesse enganado.
À medida que ia lendo ia revivendo um episódio que se passou não há muito tempo, talvez há uns dois anos, que muito me perturbou. Estava eu muito bem com o meu irmão quando a Catarina apareceu, sem ter reparado em nós, mas a fazer algo que chamava a atenção. Adivinhando já o que se ia passar, embora com alguma esperança de que não acontecesse nada, o meu irmão, que nunca a tinha visto, nem podia supor que eu pudesse ter algum interesse nela, voltou-se para mim e sussurrou-me "aquela ali não é nada de se deitar fora". Foi como se estivesse estado cego o tempo todo e os olhos se me abrissem naquele instante. Um cenário que ainda não se me colocara apareceu de repente à minha frente, com todos os detalhes e tão bem definidos que era como se estivesse a acontecer. E que dor aquilo me causou. Foi como se tivesse visto o futuro. Vi a Catarina e eu numa relação, muito apaixonados um pelo outro, até surgir a inevitável altura em que é apresentada à família. E aqui, como uma revelação, ou como um aviso, foi como se tivesse a certeza de que o meu irmão se tornaria o incontestável alvo de todo o seu amor.
O meu irmão é o melhor dos rapazes, de quem, acreditem, não guardo nenhum rancor. Não tem culpa de que toda a gente goste dele... Não faz esforço nenhum para que isso aconteça. Nunca me senti traído por ele. Ele tem qualquer coisa de especial, uma aura digamos, que atrai toda a gente. Gente e não só. A minha cadela, por exemplo, até salta quando o vê. Por outro lado, eu, um cidadão comum, tenho o condão inverso. O menos nobre sentimento que tenho por ele é uma ponta de inveja, por não ter saído mais como ele. Foi por isso que me surgiu este receio em relação à Catarina. Muitos pensamentos invadiram então a minha cabeça. Desde dar graças por nunca ter tido nada com ela e assim nunca a poder perder, a imaginar subterfúgios para que os dois nunca se viessem a cruzar.
No ponto da narrativa em que me encontro Vássia já levou Arkádi a casa da noiva. E, claro está, este ficou apaixonadíssimo por ela. Todas as minhas suspeitas se estão a confirmar e avançar na leitura desta novela está a tornar-se cada vez mais penoso. Até pode ser que não, que tudo acabe em bem. Mas já todos percebemos o que vai acontecer, não percebemos? Nem quero imaginar o que Vássia vai sentir...
Se em "A senhoria" fui confrontado com uma realidade "igual" à que tive recentemente, cujo tema é o amor não correpondido, ou a rejeição, em "Coração fraco" estou a encontrar outra realidade, ainda mais dolorosa, que a todo o custo tento evitar, que é a do ciúme, da traição. É de tal ordem a minha fobia a esta dor que as maiores decisões da minha vida foram por ela condicionadas.
Agora expliquem-me lá, adeptos das ciências ocultas, como é que eu pude ter este pressentimento em relação a esta novela? Como é que pressenti que estava perante um texto que me iria abrir a ferida mais dolorosa que tenho? Para a coincidência de ”A senhoria” encontrei uma explicação. Para esta premonição confesso que não estou a ver.
Nota: poderão ler-me também em: https://oqueficanagaveta.blogspot.com/