O que fica na gaveta

Este texto não é sobre gajas

Tem uma vida profissional difícil de suportar? Não se sinta só. Provavelmente não é tão difícil como a minha. A minha é uma seca, mas uma seca, tão grande, tão grande que não me cabe nos pulmões o ar necessário para proferir o impropério que a mesma merece. Só a consigo aguentar pensando um dia de cada vez e graças às imensas distracções pontuais que vou inventando.

O pior é que não vejo solução à vista. Já ninguém me quer com a minha idade e o meu posto. Já tive uma entrevista que esteve quase, quase a resultar, mas o carcanhol que estavam dispostos a gastar era vergonhosamente baixo... Se fosse só um bocado... Mesmo assim ainda ponderei... apesar dos cerca dos 240 km que precisaria de fazer diariamente.

A minha triste experiência também não ajuda a querer mudar. Trabalhei mais de vinte anos numa grande empresa. Era respeitado, tinha responsabilidade, autonomia, subordinados, um salário interessante. Tinha estatuto. Só não fui muito feliz porque nem o meu corpo nem a minha mente foram talhados para trabalhar no mesmo assunto de manhã à noite. Mas também o não foram para ser empreendedor, por isso tinha de me aguentar.

O problema foram os últimos cinco anos nessa empresa. Passei a ter uma chefia muito tóxica e não aguentei. Durante esse tempo estive atento a todos os anúncios que me surgiam, fui a algumas entrevistas e a oportunidade acabou por surgir. Encontrei o remédio de que precisava para acabar com aquele sofrimento. E engoli avidamente a pílula que me apareceu, sem hesitar. Ainda por cima era bem dourada. Haviam de ver o site... Já se passaram seis anos...

Somos cinco gatos pingados, com fones nos ouvidos o dia todo. Falo mais de manhã quando vou ao café do que o dia todo com esta malta. Felizmente o ambiente não é tóxico, mas por vezes pergunto-me: onde está o ambiente? Perdi estatuto, autonomia, responsabilidade. Perdi contacto com fornecedores e com clientes. Perdi o contacto diário com os meus colegas de tantos anos, que ficaram mais do que colegas. Ainda me encontro e falo com eles muitas vezes. Perdi autoestima e autoconfiança. Deixei de acreditar num futuro melhor. Só não perdi salário, que esse até melhorou. Mas pagava para ter um trabalho mais aliciante. O que me aconteceu faz-me lembrar os pobres coitados que se lançaram das torres gémeas para fugir do fogo. Só queria era sair dali. Sabia que ali não poderia ficar e lancei-me pensando que pior não poderia ser. Agora tenho dúvidas...

Desmoralizo-me quando verifico que ainda me faltam 12 anos para a reforma... Penso que sou capaz de muito mais. Que estou aqui a desperdiçar o meu tempo e as minhas qualidades. Acho que ainda poderia dar muito, sobretudo se estivesse motivado e com vontade. Mas não encontro solução à vista. Ainda tenho filhos a meu cargo e uma casa para pagar. Não posso mandar tudo às urtigas. Só me resta aguentar e esperar outro milagre.

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