Estávamos de férias. Sentámo-nos num banco desocupado. No banco à nossa frente estava uma família de quatro pessoas. À direita estava o pai, um tipo um pouco mais novo do que eu, dois rapazes, um com cerca de 15 anos e o outro 11 e, mesmo à minha frente, uma rapariga, que de início me pareceu ser uma filha, com idade difícil de adivinhar.
Aos poucos fui percebendo que era mais velha do que inicialmente imaginara. Não era criança, nem adolescente, a julgar pela mala, pelas sandálias de salto alto e, sobretudo, pela postura. O cabelo castanho era jovem, apanhado parcialmente atrás, num travessão. Tinha brincos nos lóbulos das orelhas. A pele era clara, fina e homogénea, o que me era dado a entender pelo pouco que via das suas faces. Pelo trato e autoridade que tinha para com os rapazes, presumi que seria a sua mãe e que, pela idade do mais velho, poderia ter 37 anos. Não parecia, mas não era impossível.
Senti que manifestou uma certa curiosidade por quem ficou no banco atrás de si. Pelo menos por três vezes, voltou-se como se procurasse alguém atrás de nós, mas sem conseguir esconder, nessas mesmas três vezes, que me observava pelo canto do olho. Era bonita. Senti uma grande tensão durante toda a celebração. Como se nos estivéssemos a conter para não olharmos um para o outro, numa luta interior entre o Bem e o Mal, avivada pelo lugar onde esta se estava a travar.
No "abraço da paz", a jovem mãe voltou-se para nos saudar, mas, naquela confusão de cumprimentos, em que tudo foi muito rápido, os nossos olhos não chegaram a encontrar-se.
Quando saímos constatei que ela não me procurou e entendi que tudo não passara de imaginação minha. O seu percurso estava a ser o mesmo que o nosso. Iam apenas alguns metros à nossa frente. Só quando chegámos à zona das barraquinhas é que se meteram por lá enquanto nós continuámos em frente, indo diretamente para casa.
Assim que chegámos a casa voltei a sair para passear a Milu. Sem explicação lógica, procurei ir por caminhos onde seria mais provável encontrá-la. Pela direcção que tomaram tinha esperança de que pudessem estar por perto. Mas ao regressar a casa, o meu pressentimento acabou por se concretizar: vi aquela família na esquina da marginal com a rua da padaria. Começaram a subir esta rua e eu meti-me também por ela, na espectativa de uma eventual aproximação entre nós. Acabei por ultrapassá-los, mas não tive coragem nem de os abordar nem de procurar os olhos dela, o que seria até natural, visto já nos termos cumprimentado todos. Acho que fui levado pelo pensamento, que já me ocorrera antes, de que não tinha o direito de interferir na relação daquele casal. Acontece que estes pensamentos virtuosos, muitas vezes, não passam de estratagemas mentais para nos convencerem de que até somos pessoas decentes. Na verdade, no momento seguinte já estava a pensar que poderia abordá-la mais tarde e, com sorte, estando sós...
Quando me aproximava da galeria do nosso prédio constatei que eles também se dirigiam para lá. Graças à Milu, tive possibilidade de fazer compassos de espera sem levantar suspeitas, o que me permitiu constatar que entraram na primeira porta do prédio. Do mesmo prédio onde eu estava! Fiquei radiante com esta coincidência que mais razão deu ao meu optimismo. Pensei ainda que todas estas coincidências tinham um propósito e que, se aconteceram, não iriam ficar por aqui.
Andei os dias seguintes a olhar para as varandas, a alterar percursos, a voltar a cabeça, enfim, a ansiar pelo momento em que a iria encontrar a sós e em que os nossos olhos se iriam finalmente cruzar para confirmar uma mútua e grandiosa paixão. Estou a exagerar um pouco, é verdade, mas esta é a melhor forma de retratar as emoções que sentia naqueles dias.
O tempo foi passando e não havia meio de a encontrar. Nem na praia, nem no café, nem na marginal, nem nas galerias do prédio... Em lado nenhum. A partir de certa altura comecei a perder a esperança. Talvez tenham ficado ali apenas uma ou duas noites ou talvez sejam muito caseiros... A verdade é que não voltei a vê-la. E assim findou, tão inesperada e insipidamente como a respetiva narrativa, esta aparentemente promissora novela...