A Milú já tem um ano e meio. Levá-la à rua foi uma grande novidade, pois nunca tinha tido um cão. Comecei a fazê-lo quando ela tinha apenas três meses. Até então nunca me tinha apercebido da enorme quantidade de cães que moravam naquela zona. Passei a conhecer vizinhos que só conhecia de vista, muitos deles desde que fui para ali viver, já lá vão mais de duas décadas. Passei também a conhecer vizinhos que nunca tinha visto, muitos dos quais a viver ali também há muitos anos. Um deles foi uma vizinha. Foi fácil começar a conversar com ela, pois tem um cão da mesma raça da Milú, apenas quatro meses mais velho. O Corisco. Os nossos cães deram-se bem e nós também. As nossas conversas eram sempre acerca dos canídeos, o que acontece entre todos os passeantes de cães, pelo menos no início. O que também acontece é não se saber o nome dos donos. Começa-se por se saber o nome dos animais e, como é óbvio, não se pergunta logo o nome à pessoa. O tempo vai passando e assim vão ficando as coisas. Ainda hoje não sei o nome desta vizinha. Nem ela o meu, pelo menos por mim.
Gostei logo dela. Não sendo escultural, longe disso, nem de uma beleza por aí além, nem mesmo de uma simpatia extraordinária, tem algo que me fez aproximar-me dela com poucas ou nenhumas reservas. Era raro o dia em que não a via pelo menos uma vez. E era ela quem eu procurava em primeiro lugar ver quando saía com a Milú. Com o tempo percebi que tem dois filhos. Uma vez por outra iam com a mãe. O mais novito engraçou bastante com a Milú, o que o levava a gritar da varanda pelo seu nome quando nós, eu e a Milú, passávamos por perto. Foi assim que fiquei a saber onde morava a vizinha. A menos de cem metros de mim. Não sabia se era casada, separada ou viúva. E nunca vi o Corisco com mais ninguém a não ser com ela.
Uma noite, as minhas dúvidas desfizeram-se. Encontrei a família completa a passear com o Corisco. A mãe, os filhos e o pai. Ele cumprimentou-me efusivamente, com uma voz forte e decidida. Um aperto de mão condizente. E disse: "então esta é que é a Milú" revelando que já ouvira falar muito nela. Nunca tinha visto aquela alma. Um verdadeiro macho-alfa que destruiu por completo a ideia que fazia do hipotético e provável marido. Respondi-lhe normalmente sem me mostrar diminuído, apesar da nossa diferença de alturas e de pesos. Depois disso só voltei a vê-lo mais duas ou três vezes. Mas não com a mulher, excepto uma vez, há poucos dias. E o mesmo aconteceu com ela. A partir daquele dia deixou de aparecer. Pelo menos nas horas costumeiras. Ainda pus a hipótese de ter acontecido alguma coisa ao Corisco, mas não. Vim a sabê-lo umas semanas mais tarde quando voltei a vê-la: agora vamos mais para aquele lado e tal... fiquei sem saber o que realmente se passara... sem saber o que terá acontecido para que as rotinas se viessem a alterar daquela maneira. De vez em quando lá voltava a vê-la. No entanto, algo parecia impedi-la de falar e gesticular abertamente. Foi nesta altura que, para mim, a alcunhei de Cinderela. Levado pelo imaginário infantil, construí a teoria de que o marido, ciumento, a terá encarcerado em casa, a ela e ao cão, só a deixando sair em determinados horários e dentro de uma área muito restrita, rigorosamente delimitada. Nunca tive oportunidade de o esclarecer.
Há dias testemunhei uma situação que veio corroborar esta minha teoria. Quando passava com a Milú à porta da sua garagem, vi o seu filho mais novo de bicicleta e a Cinderela lá dentro a retirar uma bicicleta de adulto. Ainda fiz um compasso de espera para a cumprimentar, mas, por distracção sua ou dissimulação, continuou sem se virar para mim. Prossegui no meu passeio sem já me indignar. Passado pouco tempo calhou encontrá-la novamente, desta vez circulando de bicicleta com os filhos atrás. Tendo parado, tive oportunidade de a cumprimentar, esperando que me respondesse com algumas palavras simpáticas, como era seu hábito. Mas não. Respondeu apressada e monocordicamente, retomando a sua marcha, fugindo de mim a sete pés. Um minuto mais tarde vi aparecer o marido, que veio integrar o pelotão e foi a este facto que atribuí a sua amedrontada evasão. Ontem, vi-a na rua só com os filhos. Sem saber já como me dirigir a ela, acenei-lhe brevemente com a cabeça. Desta vez, talvez por se sentir livre do seu carrasco, acenou-me simpaticamente com a mão. Digam-me lá se tenho ou não tenho razão? Quanto ao Corisco, já não o vejo há mais de dois meses. Nem na rua nem na varanda. Será que o dono o cozinhou?