O que fica na gaveta

Ainda a Catarina

Já passaram mais de três meses desde que soube que a Catarina vai ser mãe. Pouco tempo depois escrevi-lhe uma mensagem de felicitações. Deixei expresso o afeto que sinto por ela e deixei claro que o facto de ter deixado de a olhar, que deve ter notado, nada teve que ver com desprezo (ideia que começou a apavorar-me, por tão equivocada que é). Simplesmente, a sua gravidez envolve uma terceira pessoa que não supunha na equação. E outra, indefesa, que vai precisar muito dessa pessoa... Ou seja, o meu direito, já de si ilícito, tornou-se agora proscrito...

Desde então só me cruzei com ela, frente a frente, por duas vezes. Em ambas me relanceou um olhar que me pareceu de súplica. Ainda não entendi bem o que possa estar a pedir-me. Estará a pedir-me desculpa? Como? se a culpa desta situação é toda minha? (quando reparei nela, já lá vão uns 10 anos, e comecei a demorar sobre si o meu olhar, ela nem sabia que eu existia. Eu teria 42. Ela 25. Não sei quantos anos mais tarde começou a corresponder às minhas investidas, timidamente umas vezes, mais descarada outras. Sei que não foi logo. Durante uns anos não se apercebeu de nada, mas seguramente há mais de 6 anos que jogamos este jogo). Talvez se sinta culpada por não ter posto mais cedo os pontos nos is e esteja agora a sentir pena de mim, que é um sentimento que me repugna. Prefiro acreditar que aquele olhar revela a sua angústia por ter tornado os nossos destinos ainda mais distantes. Lírico...

Apesar de não nos termos voltado a olhar, nem eu nem ela deixámos de frequentar os mesmos lugares. Mas esta contenção, mais do que nos afastar, deixa no ar uma tensão que nos torna ainda mais presentes no espírito um do outro. Pelo menos é o que acontece comigo e sinto que com ela se passa o mesmo. A ansiedade por tornar a vê-la é tão grande ou maior do que a que tinha antes. Já houve dias em que evitei encontrá-la, mas isso só fez com que o desejo de voltar a vê-la se tornasse ainda maior, só se apaziguando na sua presença. O mais sensato seria deixar de frequentar de vez estes espaços, mas vou, dia após dia, adiando esta resolução.

Talvez não seja amor o que sinto por ela. Caso contrário não me sentiria tantas e tantas vezes atraído por outras mulheres (e não me refiro a atracção física, que essa é fácil de identificar e de desvalorizar). Como quando encontro certa jovem, com narizinho de escorrega e uma covinha no queixo, que me deixa completamente aparvalhado... pior: com vontade de querer conquistá-la (curiosamente tem algumas parecenças com a Catarina...). Se amasse verdadeiramente a Catarina aconteceria isto? E como seria se vivesse com ela? Não me aconteceria o mesmo que me acontece agora com a Eva? Chego à conclusão de que, contrariamente a amar muitas mulheres em simultâneo, não amo é nenhuma. Estes sentimentos nada têm de amor. É puro egoísmo. Têm que ver com a minha satisfação. E como me entristece esta conclusão...

Estou cansado desta dependência! Quero evitá-la, mas não sei como. Por vezes desejava ser eunuco, mas quando isso imagino penso no quão enfadonha se tornaria a vida… Como viveria eu sem o sentimento mais bonito que experimento e que me parece ser o único pelo qual vale a pena viver? Mal por mal, mais vale travar diariamente esta luta, combater as minhas inclinações naturais, manter as rédeas bem curtas ainda que tudo na minha alma ordene que as solte.

Para tentar acalmar o meu espírito e minimizar as situações desviantes, sem ser tão radical, decidi tornar mais evidente a minha idade, uma vez que toda a gente me julga 6 ou 7 anos mais novo. Para tal decidi deixar crescer a barba e expor a imensidão de pelos brancos que já a compõem. Talvez ainda não me deem os 52 que já carrego, mas 45 penso que já não me dão. Assim, com um leque mais reduzido de potenciais interessadas, talvez seja mais fácil comportar-me melhor.

Quanto à Catarina, continuo a adorá-la e angustia-me pensar que esta medida poderá afastá-la ainda mais de mim, mas tenho de me convencer de que tenho que abrir mão dela definitivamente, o que não está a ser nada fácil.

 

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